Page 23 - O Elo - Dezembro 2025 - Fevereiro de 2026
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contemporâneo ainda encontram uma ligação com de concentração de Auschwitz. Somente a educação
seus ancestrais, por serem descendentes e destinatários sobre o que ocorreu no passado é capaz de impedir
desse racismo que começou no regime escravocrata que as chagas herdadas se perpetuem ou se repitam no
colonial e ainda se perpetua nos dias de hoje.7 presente e no futuro.
A herança maldita da escravidão ainda se faz presente Para concluir, tem-se como premissa a frase
no Brasil contemporâneo nos mais diversos setores da imortalizada na obra “O abolicionismo” do jurista,
economia nacional, indo desde o trabalho doméstico, diplomata, político, orador e jornalista brasileiro
até o trabalho no setor agropecuário, mineração, entre Joaquim Nabuco, formado pela Faculdade de Direito
outros. de Recife e um dos fundadores da Academia Brasileira
Se, no passado mais remoto, o Brasil se valeu de de Letras, na qual se escancara a verdade de que “A
mão de obra escrava composta por imigrantes trazidos vitória abolicionista será fato consumado no coração e
à força física e subjugados desde sua captura até seu na simpatia da grande maioria do país: mas enquanto
destino em terras brasilis, hoje a prática do trabalho essa vitória não se traduzir pela liberdade, não afiançada
análogo à escravidão ainda tem se valido de mão de por palavras, mas lavrada em lei, não provada por
obra imigrante e principalmente de afro-descendentes sofistas mercenários, mas sentida pelo próprio escravo,
brasileiros, porém com nuances que ainda perpetuam semelhante triunfo sem resultados práticos, sem a
a violência, aproveitando-se das vulnerabilidades de reparação esperada pelas vítimas da escravidão, não
suas vítimas, seja a hipossuficiência econômica, seja o passará de um choque da consciência humana em um
desamparo pela não compreensão adequada do idioma organismo paralisado - que já consegue agitar-se, mas
e conhecimento do território, maquiada de proposta ainda não caminhar.”9
rentável que mascara o tráfico de pessoas. A simpatia pelo combate ao trabalho escravo “não
Assim, o dia 28 de janeiro, conhecido como Dia passará de um choque da consciência humana em
Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, ainda se faz um organismo paralisado – que já consegue agitar-se,
imperativo e urgente, não como mero símbolo histórico mas ainda não caminhar”10, caso não sejam envidados
a ficar apenas registrado em livros, artigos e museus, esforços efetivos para seu combate diário em todos os
mas como instrumento de memória capaz de produzir setores da economia brasileira através das instituições
ações presentes no sentido de impedir a perpetuação governamentais e da ação da própria sociedade civil,
do trabalho em condições análogas à escravidão. como observamos nas ações do Disque 100 e do
Segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos próprio Comitê Gestor de Combate ao Trabalho Escravo
e Cidadania (MDHC), só no ano de 2025 foram recebidas da Justiça do Trabalho.
4.516 denúncias de trabalho em condição análoga à O triunfo no combate à escravidão depende de uma
escravidão, o maior número registrado na história para memória que produza ações concretas na reparação às
o período de um ano.8 vítimas e no enfrentamento à perpetuação desta forma
Tais números são reflexos da maior conscientização de violência que destrói a dignidade do trabalhador e
sobre essa forma de exploração do trabalho humano e aniquila a liberdade que advém do trabalho.
aviltamento da liberdade dos trabalhadores, o repúdio a A reparação à vítima de trabalho escravo consiste
tais práticas e a busca pelas instituições governamentais não só na indenização pelos danos materiais e morais
capazes de combaterem essa chaga social. sofridos durante o tempo de sujeição a tais condições
Como Coordenadora Nacional do Comitê Gestor de degradantes e de privação de liberdade, bem como na
Combate ao Trabalho Escravo, reforço a importância devida punição penal de seus algozes, mas também na
da conscientização através de cartilhas educativas reinserção deste trabalhador no mercado remunerado
e programas informativos a respeito das formas, em uma relação de emprego protegida pelos direitos
desdobramentos e manifestações possíveis do trabalho trabalhistas previstos na Constituição da República e em
em condição análoga à escravidão, por entender que só toda a legislação vigente.
a educação é capaz de permitir que tais violações aos Se esta reinserção no mercado de trabalho
direitos humanos sejam identificadas para impedir que remunerado e constitucionalmente tutela com um
a barbárie se perpetue, reproduza e ganhe espaço em patamar civilizatório mínimo não for implementada,
nosso país. corremos o risco daquilo que Joaquim Nabuco alertou
Como o filósofo alemão da Escola de Frankfurt, no período da abolição: “A não se ir além da lei, esta ficaria
Theodor Adorno, muito bem esclareceu em sua sendo uma mentira nacional, um artifício fraudulento
obra “Educação Após Auschwitz”, “para a educação, a para enganar o mundo, os brasileiros, e, o que é mais
exigência de que Auschwitz não se repita é primordial”. triste ainda, os próprios escravos”.
Não há como ignorar que o trabalho em condição
análoga à escravidão foi um dos pilares do nazismo com
o bordão “o trabalho liberta” bem na entrada do campo Fonte: Migalhas
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