Page 29 - O Elo - Setembro de 2025
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Artigo




             O teste de coerência do Estado brasileiro:

                          Confiar ou não nos precatórios




                 Ao rejeitar precatórios como garantia, a ANS reacende o debate sobre a
              confiança do Estado em suas dívidas e a credibilidade institucional do país.





           A decisão da ANS - Agência          É evidente que a prudência  como saúde, infraestrutura e

         Nacional de Saúde Suplementar  regulatória é necessária. O uso  energia, e ampliaria a eficiência do
         de rejeitar os precatórios federais  de precatórios como lastro  sistema financeiro sem pressionar

         como      ativos    garantidores não deve ser feito de forma  a dívida pública.
         reacendeu um debate que vai  desordenada. Mas a solução                   A    verdadeira     prudência
         muito além do setor de saúde  não é proibir, é estruturar. O           regulatória não é recusar o novo,
         suplementar. Ela expõe uma  Brasil pode e deve avançar para  mas modernizar o que já existe
         questão central para a economia  um modelo institucional que  com transparência, governança e
         e para o próprio Estado brasileiro:  permita o uso seguro desses  responsabilidade.  Os  precatórios
         afinal, o governo confia em suas  títulos, com registro centralizado,  federais, longe de representarem
         próprias dívidas? Os precatórios  auditoria independente e critérios  risco, são um teste de coerência
         federais  representam  créditos  transparentes de liquidez e  institucional:  se  o  Estado  não
         reconhecidos  judicialmente  e  valuation.                             cumpre  e  não  valoriza  suas
         incluídos no orçamento da União.      A criação de um sistema  próprias            decisões     judiciais,
           São, portanto, obrigações  nacional de custódia e registro           compromete a confiança de todo

         soberanas com força judicial  de precatórios, sob supervisão do  o sistema. Reconhecê-los como
         e orçamentária, diferentes de  Banco Central e interoperabilidade  ativos de verdade não é apenas
         qualquer    outro   instrumento com  o  Tesouro  Nacional  e  uma questão técnica, é um ato
         de crédito. Não se tratam de  órgãos de controle, eliminaria as  de maturidade institucional e de

         títulos privados ou dívidas de  incertezas sobre autenticidade e  reafirmação da credibilidade do
         mercado, mas da materialização  titularidade. Isso permitiria que os  Estado brasileiro. A ANS e outros
         da responsabilidade do Estado  precatórios  federais  circulassem  reguladores têm a oportunidade
         em cumprir decisões judiciais  no ambiente regulado com a  de liderar essa mudança: adotar
         transitadas     em       julgado. mesma segurança dos títulos  uma prudência construtiva, que
         Negar-lhes    valor   regulatório públicos tradicionais, garantindo  fortaleça a estabilidade do sistema
         é um equívoco que fragiliza a  previsibilidade e transparência.  sem negar o papel legítimo dos
         credibilidade  institucional  do  Além do aspecto técnico, há um  precatórios na economia.

         país. Se o próprio Estado não  ponto macroeconômico crucial.              O futuro fiscal do país depende
         acredita  em  suas  dívidas,  como    O volume de precatórios  da capacidade de transformar
         pode esperar que o mercado o  federais         supera     R$     150 passivos reconhecidos em ativos
         faça?  Tratar precatórios federais   bilhões,  representando     um    de confiança pública. E esse

         como risco, e não como ativos      estoque expressivo de riqueza  futuro começa com uma decisão
         de   garantia    com    respaldo judicialmente  reconhecida,  mas  simples, mas simbólica: acreditar
         jurídico e fiscal, é desperdiçar  subutilizada  como  instrumento  que a palavra do Estado, expressa
         a oportunidade de fortalecer o  econômico.  Transformar  esses  em um precatório, tem valor real.
         sistema financeiro e reduzir a  créditos em ativos lastreáveis
         dependência  de  instrumentos  reduziria o custo de capital para
         puramente bancários.               setores intensivos em garantia,                            Fonte: Migalhas




                                                                               O ELO out-nov|2025 • www.sinpait.org.br   29
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