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Dia da Criança
A infância roubada que o Estado
insiste em não enxergar
Mais de 1,6 milhão de meninas e meninos ainda trabalham em condições precárias.
A falta de auditores fiscais e de políticas integradas revela que o Estado segue
falhando em proteger sua maior riqueza: a infância.
Foto: Arquivo Pessoal
O Dia da Criança costuma ser
lembrado como uma data de alegria,
de presentes e de celebração da
infância. Mas essa imagem tão
comum contrasta com a realidade de
mais de 1 milhão e 650 mil crianças e
adolescentes em situação de trabalho
infantil no Brasil. Um número que, em
vez de diminuir, cresceu nos últimos
anos. Na Bahia e em Salvador, a
situação é ainda mais grave: lideramos
o triste ranking do Nordeste.
Erradicar o trabalho infantil não é
simples. Requer coordenação entre
políticas fiscais, sociais, educacionais e
econômicas. Mas o problema é que o
Estado brasileiro fala muito e faz pouco.
O discurso sobre proteção à infância “Não há como enfrentar o trabalho infantil sem fortalecer as instituições responsá-
não se traduz em ação efetiva. O veis pela inspeção”
Congresso Nacional, que rapidamente
aprova bilhões em emendas e verbas
eleitorais, parece incapaz de destinar que lhe pertence. estrutura, integrar políticas públicas
recursos à prevenção e ao combate ao Levei o caso ao conhecimento dos e tratar o tema como prioridade
trabalho infantil. E o governo federal, colegas da fi scalização, profi ssionais nacional. Sem isso, continuaremos
por sua vez, não tem dado o exemplo dedicados e incansáveis, mas três enxugando gelo e assistindo,
que deveria: mantém o concurso de meses depois o menino continuava impotentes, à perpetuação de uma
Auditor Fiscal do Trabalho engavetado lá. E o motivo é simples e vergonhoso: das maiores feridas sociais do país.
e não chama os aprovados. em Salvador, há apenas dois Neste 12 de outubro, o meu abraço
Sem novos auditores, o país perde Auditores Fiscais do Trabalho atuando vai para essas crianças e adolescentes
capacidade de atuação justamente diretamente no combate ao trabalho que, neste exato momento, trabalham
em um dos setores mais sensíveis. E infantil. Dois. quando deveriam estar brincando,
o resultado dessa omissão é visível e Essa é a face concreta da aprendendo e sonhando.
doloroso. negligência do Estado. Enquanto E vai também para cada servidor e
Há poucos meses, ao levar meu tecnocratas se escondem atrás servidora que, mesmo com recursos
carro a uma oficina, parei em uma da burocracia, gestores ignoram a escassos e estrutura limitada, segue
lanchonete próxima e vi um rapaz urgência do problema e políticos acreditando que ainda é possível
tentando preparar café em uma usam o orçamento público para transformar indignação em mudança.
máquina industrial. Ele quase se interesses eleitorais, milhares de
queimou, fazia aquilo com extrema crianças seguem tendo seus sonhos
dificuldade. Para não constrangê-lo, interrompidos e sua infância roubada.
perguntei ao dono da lanchonete Não há como enfrentar o trabalho Por Mário Diniz,
a idade dele. Quinze anos. Quinze infantil sem fortalecer as instituições vice-presidente do Sa teba
anos e já submetido a uma rotina de responsáveis pela inspeção. É preciso (Sindicato dos Auditores Fiscais do
risco, longe da escola e da infância contratar novos auditores, garantir Trabalho no Estado da Bahia)
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