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Entrevista
Marítimo, subordinada à Capitania dos Portos, em
Santos. Eu não tinha escolha. Lá a fiscalização é
subordinada à Capitania dos Portos. Eu vinha do
mundo da contabilidade, de balanço, de processo
administrativo, e, de repente, precisava entrar em
navios, lidar com capitães estrangeiros, entender
legislação marítima, rotinas portuárias, movimentação
de cais e armazéns. Era um universo completamente
diferente do meu.
Eu sabia que poderia contribuir muito mais em São
Paulo, onde meu conhecimento técnico seria útil. No
Ministério quase ninguém sabia ler um balanço com
profundidade. E muitas irregularidades só aparecem
na contabilidade. Em Santos, esse conhecimento
praticamente não tinha uso.
Comecei a insistir, a procurar colegas, lideranças,
pessoas que pudessem ajudar. Até que um dia, depois
de muita persistência, recebi a liberação por escrito.
Peguei o carro, subi a serra direto para São Paulo e fui
agradecer pessoalmente ao Delegado Regional do
Trabalho, Vinícius Ferraz Torres, que foi presidente
do sindicato e que me ajudou muito. Nunca esqueci
aquele dia. Foi um dos mais felizes da minha vida.
E como foi essa fase de adaptação em São Paulo?
Foi ali que a carreira realmente começou. Trabalhei
inicialmente como interno, organizando processos,
mexendo com homologações, entendendo rotinas,
aprendendo prazos e procedimentos. E a convivência
com colegas experientes foi essencial. Era uma época
em que o aprendizado era muito direto, muito próximo.
Colegas sentavam comigo e ensinavam na prática.
E aí minha experiência contábil começou a aparecer.
Como eu sabia interpretar um balanço profundamente,
passei a ser chamado para fiscalizar casos complexos:
cooperativas, locação de mão de obra, pejotização.
Muito do que se escondia em irregularidades só
aparecia nos lançamentos contábeis. Os escritórios
de advocacia transformavam empregados em sócios; ficávamos dez, quinze dias hospedados na região.
hospitais e empresas de tecnologia contratavam tudo Íamos para a lavoura, literalmente para o meio
como PJ; cooperativas disfarçavam vínculos. E tudo da cana, para encontrar grupos de trabalhadores
isso aparecia no balanço. Era só saber onde olhar. terceirizados ou simplesmente abandonados sem
Depois vieram as fiscalizações no interior, que direitos. Muitas vezes fiscalizávamos empreiteiros que
foram algumas das mais intensas da minha vida. escondiam documentos. Em um caso, pedi ao chefe
Ribeirão Preto foi marcante. Havia usinas enormes do departamento pessoal que abrisse um armário.
com centenas de trabalhadores sem registro. Nós Ele achou estranho, mas abriu. Lá estavam cartões de
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