Page 5 - O Elo - Setembro de 2025
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Entrevista




        Marítimo, subordinada à  Capitania dos Portos, em

        Santos. Eu não tinha escolha. Lá a fiscalização é
        subordinada à Capitania dos Portos. Eu vinha do
        mundo da  contabilidade, de balanço, de processo
        administrativo, e, de repente, precisava entrar em
        navios, lidar com capitães estrangeiros, entender
        legislação marítima, rotinas portuárias, movimentação
        de cais e armazéns. Era um universo completamente
        diferente do meu.
           Eu sabia que poderia contribuir muito mais em São
        Paulo, onde meu conhecimento técnico seria útil. No
        Ministério quase ninguém sabia ler um balanço com
        profundidade.  E  muitas  irregularidades  só  aparecem
        na contabilidade. Em Santos, esse conhecimento
        praticamente não tinha uso.
           Comecei  a  insistir,  a  procurar  colegas,  lideranças,
        pessoas que pudessem ajudar. Até que um dia, depois
        de muita persistência, recebi a liberação por escrito.
        Peguei o carro, subi a serra direto para São Paulo e fui
        agradecer pessoalmente ao Delegado Regional  do
        Trabalho,  Vinícius Ferraz  Torres,  que foi presidente
        do sindicato e que me ajudou muito. Nunca esqueci
        aquele dia. Foi um dos mais felizes da minha vida.

           E como foi essa fase de adaptação em São Paulo?


           Foi ali que a carreira realmente começou. Trabalhei
        inicialmente como interno, organizando processos,
        mexendo com homologações, entendendo rotinas,
        aprendendo prazos e procedimentos. E a convivência
        com colegas experientes foi essencial. Era uma época
        em que o aprendizado era muito direto, muito próximo.
        Colegas sentavam comigo e ensinavam na prática.
           E aí minha experiência contábil começou a aparecer.
        Como eu sabia interpretar um balanço profundamente,
        passei a ser chamado para fiscalizar casos complexos:

        cooperativas, locação de mão de obra, pejotização.
        Muito  do  que  se  escondia  em  irregularidades  só
        aparecia  nos  lançamentos  contábeis. Os escritórios
        de advocacia transformavam empregados em sócios;        ficávamos dez, quinze dias hospedados na região.

        hospitais e empresas de tecnologia contratavam tudo     Íamos para a lavoura, literalmente para o meio
        como PJ; cooperativas disfarçavam vínculos. E tudo      da cana, para encontrar grupos de trabalhadores
        isso aparecia no balanço. Era só saber onde olhar.      terceirizados ou simplesmente abandonados sem


           Depois vieram as fiscalizações no interior, que       direitos. Muitas vezes fiscalizávamos empreiteiros que
        foram algumas das mais intensas da minha vida.          escondiam documentos. Em um caso, pedi ao chefe
        Ribeirão Preto foi marcante. Havia usinas  enormes      do departamento pessoal que abrisse um armário.
        com centenas de trabalhadores sem registro. Nós         Ele achou estranho, mas abriu. Lá estavam cartões de



                                                                               O ELO out-nov|2025 • www.sinpait.org.br   05
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