Page 5 - O Elo - Junho de 2025
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Mulher e Trabalho



                         Mulheres ainda ganham menos,


                                          mas até quando?




                                                                                                 Foto: Arquivo Pessoal
           Todo mundo já sabe, mulheres  mudança de cultura dentro das
        ganham menos que homens. O  empresas.
        que nem todo mundo encara com          Como fiscal do trabalho, sei que

        seriedade é o tamanho do problema  a auditoria pode fazer diferença.
        e o quanto ele insiste em permanecer,  Mas para isso precisa de estrutura,
        apesar de todas as leis, campanhas e  pessoal e prioridade. Não adianta
        promessas.                          esperar que um único relatório gere
           Os números estão aí. Dados  transformação se ninguém estiver lá
        recentes  mostram  que  as  mulheres  para verificar, acompanhar e exigir

        recebem, em média, 21% a menos  medidas concretas. Sem atuação
        que os homens no Brasil. Em  firme do Estado, o risco é transformar

        alguns setores, como saúde e  a transparência em burocracia.
        educação, essa diferença passa dos     O Sindicato  também tem  um
        30%. E se olharmos para mulheres  papel decisivo nesse processo.                Dra. Lucy Toledo Niess
        negras, o abismo é ainda maior. A  Somos nós que podemos questionar           Diretora Jurídica do SINPAIT
        desigualdade salarial de gênero  os números, participar dos planos de
        continua sendo uma realidade,  ação, cobrar resultados. E é preciso
        mesmo em pleno 2025.                deixar claro: equiparar salários entre  para começar. O problema é que,
                                            mulheres e homens não é  “boa  muitas vezes, falta vontade das
           A pergunta é, por quê?           prática”. É obrigação legal.        empresas, do Estado, da própria
                                               Outro ponto que precisa ser  sociedade. O discurso da igualdade
           Porque o problema vai muito  enfrentado é a cultura organizacional.  é  bonito, mas  o  que  conta  são  os
        além  do  salário  em  si.  Ele  começa  Ainda hoje, muitas empresas evitam  dados, os salários no fi m do mês, as
        nas  oportunidades.  No  jeito  como  o debate sobre desigualdade de  promoções que  não chegam.  É aí
        as promoções são concedidas. Na  gênero ou colocam o problema sob  que a desigualdade se revela.
        ausência de mulheres nos cargos de  o tapete, disfarçado em discursos     E não podemos tratar esse tema
        liderança. Nos critérios subjetivos de  sobre  “perfi l” ou  “ajuste ao cargo”.  como se fosse uma pauta apenas das
        avaliação de desempenho. E também  A transparência é uma das poucas  mulheres. A desigualdade de gênero

        na falta de fiscalização efetiva. Temos  ferramentas capazes de romper com  empobrece a sociedade como
        leis que garantem igualdade, o artigo  esse silêncio. Quando os números  um todo. Empresas que valorizam
        461 da CLT, a recente Lei 14.611/2023,  vêm à tona, não há mais como negar.  a equidade retêm talentos, têm
        o Decreto nº 11.795/2023. Mas  E aí, sim, começa a pressão por  equipes mais diversas e melhores
        sabemos  que, muitas  vezes, as leis  mudanças reais.                   resultados. A justiça de gênero é,
        ficam no papel.                         Alguns países já mostraram que  também, um bom negócio.

           A   legislação  mais    recente  é possível avançar. O Reino Unido,    A pergunta que dá título a este
        obriga empresas com mais de  por exemplo, tornou obrigatória  artigo,  “Mulheres  ainda  ganham
        100    empregados     a   publicar  a divulgação pública da diferença  menos, até quando?”, continua
        relatórios semestrais com dados  salarial entre homens e mulheres.  sem resposta. Mas deveria estar no
        de remuneração por gênero. Se for  Em poucos anos, houve uma queda  centro das nossas ações, das políticas
        constatada desigualdade, a empresa  signifi cativa nessa diferença e mais  públicas  e da  atuação sindical.  Já
        tem  que  apresentar  um plano de  mulheres começaram  a ocupar  passou da hora de deixarmos de
        ação para corrigir o problema, com  posições de liderança. Não foi só pela  tratar esse assunto como secundário.
        prazos, metas e participação sindical.  lei, foi pela exposição. Pela vergonha   Equiparação salarial não é utopia.
        Parece um avanço. E é. Mas o simples  de manter uma prática desigual  É uma construção coletiva, que

        fato de preencher um relatório  diante da opinião pública.              exige fiscalização séria, engajamento
        não resolve nada se não houver         No Brasil, ainda estamos longe  sindical e compromisso real com a

        fiscalização ativa, cobrança real e  desse ponto. Mas temos ferramentas  justiça no mundo do trabalho.

                                                                                 O ELO junho|2025 • www.sinpait.org.br   05
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