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Entrevista
da sociedade, a “energia elétrica”. Energia presente serviços, a desenergização de máquinas, instalações e
na quase totalidade das atividades laborais, quer na equipamentos para serviços elétricos, métodos para
indústria, na mineração, no comércio, nos serviços em atuação em emergências.
geral e até mesmo na pecuária e agricultura. Isso torna Também promoveu várias inovações, como a
essa norma transversal às demais normas, pois o risco obrigatoriedade de aterramento nas instalações
elétrico está presente em várias outras regulamentações elétricas, o trabalho em proximidade de risco elétrico,
de atividades. a proibição do trabalho individual, trabalhos em áreas
A sua revisão foi um marco de segurança no trabalho classificadas (explosivas), a introdução de roupas de
com eletricidade no Brasil, pois trouxe modernização proteção ao risco elétrico como EPI, o direito de recusa
legal e, sobretudo, teve fundamental importância no e interrupção de atividades, dentre outras.
controle do elevado número de acidentes ocasionado Respondendo objetivamente, para acompanhar a
pela grande transformação organizacional promovida evolução natural de novas tecnologias, materiais e do
no setor elétrico, a partir da década de 1990. dinamismo no processo e organização do trabalho, faz-
se necessário também a evolução e ajustes na legislação
Na sua opinião, o que ainda precisa evoluir em regulatória. Poderíamos discorrer sobre inúmeras
termos de segurança no trabalho com eletricidade no atualizações necessárias à Norma, porém, creio que em
Brasil? outro momento e espaço.
Sem dúvida a revisão da NR 10, que coordenei
em 2004, promoveu uma revolução nos quesitos de Como o senhor vê a evolução da scalização
“segurança em atividades envolvendo a energia elétrica “. trabalhista nas últimas décadas?
Ela estabeleceu critérios de gestão e responsabilização Eu me aposentei em 2011, há mais de uma
dos empresários, permitiu a aplicação de normas década, contudo continuo ativo e acompanhando
técnicas nacionais e internacionais e criou medidas as transformações políticas, sociais e trabalhistas
administrativas de controle, tais como o prontuário das em curso. Recentemente, a reforma trabalhista que
instalações elétricas, segurança em projetos elétricos, alterou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), (lei
procedimentos operacionais contendo instruções de nº13.467/2017) trouxe diversas modificações evolutivas
segurança, identificação e autorização de trabalhadores na legislação, atendendo à necessidade de adaptação
em serviços com eletricidade, a obrigatoriedade de às novas dinâmicas do mercado de trabalho gerando
treinamentos em segurança elétrica, planejamento muitas discussões e controvérsias.
e discussão da equipe antes da realização dos Tal reforma regulamentou o teletrabalho ou
trabalho remoto, o trabalho do autônomo, o trabalho
intermitente, o banco de horas, férias, jornada de
trabalho, terceirização etc, que muito influenciam nos
Foto: Arquivo Pessoal sobre a prevalência da convenção coletiva e do acordo
processos fiscalizatórios. Porém, os tópicos que dispõem
coletivo de trabalho sobre a legislação e, a criação
de acordos extrajudiciais foram muito prejudiciais à
fiscalização do trabalho e enfraquecem as relações de
trabalho.
Corroborando com essa situação de perdas, vemos
o abandono e o desmonte que a fiscalização trabalhista
vem sofrendo. Para termos uma ideia, a Organização
Internacional do Trabalho (OIT) revelou que o Brasil
enfrenta uma grave carência de auditores fiscais do
trabalho, com um déficit de cerca de 3500 profissionais.
O ideal seria ter um auditor fiscal para cada 20.000
trabalhadores, o que totaliza a necessidade de 5.441 AFT
no Brasil.
Contudo, hoje o Ministério do Trabalho possui
apenas 1.949 AFT em atividade e 3.600 cargos vagos,
segundo informações colhidas no SINAIT.
No presente momento da evolução humana
devemos considerar e refletir sobre a revolução
“Privatização do setor elétrico na década de 1990 resultou em
muita precarização das atividades laborais”
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