Page 3 - O Elo - Dezembro 2025 - Fevereiro de 2026
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Entrevista
Três décadas na defesa do trabalho digno
Auditora-Fiscal do Trabalho, dirigente sindical e autora de O Custo Humano da
Indústria 4.0, Sandra Morais de Brito Costa analisa as transformações do mundo do
trabalho e os desafios da fiscalização diante da digitalização e da gestão algorítmica.
Ao completar trinta anos de atuação na Auditoria- reconfigurando rotinas, ampliando mecanismos de
Fiscal do Trabalho, Sandra Morais de Brito Costa controle e exigindo novas respostas institucionais.
consolida uma trajetória que articula experiência Paralelamente à atuação em campo e à produção
prática, liderança institucional e produção intelectual, Sandra também contribui para a
acadêmica voltada aos dilemas contemporâneos do formação de novos Auditores-Fiscais na SRTE-
mundo do trabalho. Sua carreira se desenvolveu SP, reforçando a importância do rigor técnico, da
em um período decisivo para a consolidação dos responsabilidade institucional e da sensibilidade
direitos sociais previstos na Constituição de 1988, social como fundamentos da carreira. Sua visão
acompanhando mudanças estruturais na economia, integra fiscalização, política pública e diálogo social,
nas formas de organização produtiva e na própria sempre ancorada na centralidade constitucional do
atuação do Estado. trabalho.
Autora do livro O Custo Humano da Indústria Nesta entrevista, ela revisita marcos de sua
4.0, resultado de pesquisa desenvolvida no Brasil e trajetória, analisa os desafios atuais da inspeção do
na Espanha, Sandra trouxe ao debate temas como trabalho em um cenário de transformação tecnológica
gestão algorítmica, intensificação do trabalho, riscos acelerada e aponta caminhos para uma Auditoria-
psicossociais e os impactos da digitalização na saúde Fiscal preparada para enfrentar a opacidade
mental dos trabalhadores. A obra, lançada na sede dos algoritmos, o avanço da informalidade e a
do SINPAIT em dezembro de 2025, ampliou a complexidade das novas formas de subordinação,
reflexão sobre como a automação, as plataformas sem abrir mão de sua função protetiva e de sua
digitais e os sistemas baseados em dados vêm missão de promover justiça social.
Foto: Arquivo Pessoal
Ao longo da sua trajetória como Auditora Fiscal
do Trabalho, o que mais mudou na forma como o
Estado se relaciona com o mundo do trabalho no
Brasil?
A relação do Estado brasileiro com o mundo do
trabalho passou por profunda evolução normativa
e institucional nas últimas décadas, especialmente a
partir da Constituição Federal de 1988, que elevou o
trabalho à condição de valor fundante da República
(art. 1º, IV) e consagrou a dignidade da pessoa humana
como fundamento do Estado Democrático de Direito
(art. 1º, III). A partir desse marco constitucional,
a legislação infraconstitucional, notadamente a
Consolidação das Leis do Trabalho, passou a ser
interpretada e aplicada sob a ótica da proteção integral
ao trabalhador, abrangendo não apenas o vínculo
formal, mas também as condições de trabalho, a saúde,
a segurança e o bem-estar.
Na atualidade, a Auditoria-Fiscal do Trabalho assumiu
papel estratégico na concretização dos direitos sociais Sandra Brito posa com seus livros durante sessão de autógrafos
mínimos previstos no art. 7º da Constituição. realizada na sede do SINPAIT
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